
Livro: Rota 66 - A História da Polícia que Mata
Autor: Caco Barcellos
Editora Record
Rio de Janeiro - São Paulo, 2003
“Se a pena de morte fosse boa a Rota já tinha transformado
São Paulo em um paraíso.”
(Octávio Ribeiro, o Pena Branca, em abril de 1981)
Caco Barcellos é um renomado jornalista, apresentado no livro por Narciso Kalili como “um jornalista que tem lado – o lado dos mais fracos, das vítimas”. Rota 66 é resultado de um trabalho investigativo de um período de 22 anos da ação de policiais militares matadores de uma maioria de inocentes em São Paulo.
Como repórter, Caco noticiou muitas mortes e torturas desses matadores e, com coragem, enfrentou a fúria da PM que não queria sua imagem denegrida. Para Caco, era simples: para não haver mais notícias bastava que os policiais não cometessem mais atos de tortura e morte. Infelizmente, a realidade a ser noticiada é a de que alguns, e é bom que seja lembrado que não todos, mas, alguns integrantes da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, parte da tropa da Polícia Militar) já mataram muitos inocentes apenas pela desconfiança, muitas vezes antes mesmo de saber o nome da vítima.
Criminoso sempre parece criminoso? De longe se reconhece um criminoso? Alguns desses PMs parecem pensar dessa forma pois muitos mortos eram desconhecidos, não portavam documentos. Alguns cidadãos não atenderam o chamado da polícia porque eram surdos-mudos, outros foram mortos e depois acusados de reagirem, mas as armas forjadas como se fossem deles nem funcionavam. Os suspeitos que trocavam tiros com a PM sempre foram mortos, enquanto estes nem mesmo feridos. Na periferia, as pessoas definem o método de trabalho desses PMs com a seguinte frase: “Atiram primeiro. Perguntam depois”.
Em 5 anos, a Rota matou mais pessoas que a ditadura militar e gastou muitas vezes mais o valor dos produtos roubados na perseguição e morte dos suspeitos.
Diante desses dados, você deve se perguntar: há uma investigação sobre essas mortes? Esses matadores foram punidos? Normalmente, os responsáveis pelos Inquéritos eram os próprios colegas também matadores o que garantia a impunidade dos assassinos. Em alguns casos, havia testemunhas forjadas. Ao presenciar a morte covarde de um vizinho por um PM e ser convocado a testemunhar a favor dos assassinos, qual o poder de escolha?
Corpos retirados do local do homicídio sem perícia; tiros na cabeça, no peito, nas costas, à queima-roupa; prestação de socorro, ou melhor, entrega de cadáveres nos hospitais: alguma intenção de preservar essas vidas?
No balanço geral da investigação, temos um dado importante: a polícia que, supostamente, eliminava marginais perigosos na verdade matou uma maioria de trabalhadores sem nenhuma passagem pela polícia. Menos de 40% dos mortos investigados haviam tido algum envolvimento com o crime e menos de 1% eram assaltantes que matavam ou estupradores.
Esse livro é revoltante desde o título, afinal a sociedade espera que a polícia a proteja e não a mate. Um dia desses, um domingo de sol, a família em casa, o telefone tocou e fomos convidados para almoçar na casa de uma das tias, convite irrecusável. Nos arrumamos e saímos muito felizes no carro do meu irmão, financiado em anos de prestação. Para quem mora na periferia e passa por dificuldades financeiras, a conquista de um bem como um carro (popular mesmo) é muito mais festejada. A família se orgulha, os amigos se alegram, a gente fica feliz até de levar a vizinha doente no médico, só pelo fato de ter o carro para levar a pessoa. Por que eu não posso andar tranqüila pelo meu bairro no meu carro? Quem disse que eu não posso ouvir Racionais no meu carro? O que há de errado nisso? Por que eu tenho que ter medo quando eu vejo um carro da polícia mesmo não “devendo nada”? O meu direito de ir e vir é assegurado pela Constituição Federal. Mas isso é só teoria, a prática é bem diferente, eu sei.
Que temos direitos, todos sabemos. Apesar disso, a maioria não tem um grande conhecimento sobre seus direitos. O fato é que, cada vez mais, nossos direitos são menos respeitados, a vida tem cada vez menos valor. Faça sua parte. Faça valer os direitos que você ainda tem e um deles é que o seu voto é livre, apesar de obrigatório e, portanto, não um direito e sim um dever. A questão do voto obrigatório é outro assunto. Para concluir o assunto de hoje, eu quero dizer que, entre os nomes dos maiores matadores citados no livro Rota 66, consta o de um cidadão que está no seu sexto mandato político como deputado estadual em São Paulo.
Acredito que eu já falei o bastante, agora é com você!